O economista Tiago Cavalcanti, professor titular da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, enfatiza que não existem “atalhos” para o equilíbrio das contas públicas no Brasil. Para ele, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa agir rapidamente, anunciando um ajuste fiscal gradual que garanta estabilidade econômica.
A importância de um ajuste fiscal gradual
Cavalcanti sugere que o primeiro passo do governo deve ser a apresentação de uma nova equipe econômica, composta por profissionais comprometidos com o equilíbrio fiscal. Ele argumenta que essa equipe deve receber apoio político para que as medidas propostas sejam efetivas. “Você pode fazer o compromisso de longo prazo. Então, não precisa cortar [de uma vez], vamos suavizar isso ao longo dos anos”, afirma.
Relação entre gastos e programas sociais
O economista acredita que controlar os gastos não implica necessariamente em cortes em programas sociais. Contudo, ele sugere uma revisão na regra que garante o reajuste do salário mínimo acima da inflação sempre que há crescimento econômico, algo que Lula prometeu manter. Cavalcanti argumenta que, enquanto as contas públicas estiverem desequilibradas, o ideal seria garantir apenas a reposição da inflação, já que os aumentos acima desse índice podem ter repercussões significativas nas despesas do governo.
Críticas a propostas de redução rápida da Selic
Cavalcanti também critica a proposta de André Lara Resende, que defende uma rápida redução da taxa básica de juros (Selic). Ele alerta que essa estratégia pode levar o país a uma situação de hiperinflação, como ocorreu na Turquia. “Houve países que experimentaram isso, por exemplo a Turquia, onde teve muita pressão do [presidente] Erdogan, a taxa de juros caiu bastante em um período bem curto e o país foi para um nível de hiperinflação em pouquíssimo tempo”, destaca.
Expectativas de mercado e ações do governo
O economista expressa preocupação com a possibilidade de o governo Lula buscar soluções rápidas e não sustentáveis, o que poderia desancorar as expectativas econômicas. Ele ressalta que a ancoragem dessas expectativas é crucial para evitar que investidores retirem recursos do Brasil, o que poderia impactar negativamente a inflação e os juros a longo prazo. “Isso vai evitar que os investidores comecem a apostar contra o país”, alerta.
Visão sobre o cenário econômico atual
Cavalcanti acredita que a atual situação econômica brasileira é mais semelhante a 2003, quando Lula assumiu a presidência pela primeira vez, do que a 2014, quando o país enfrentou uma crise severa. Ele sugere que o governo deve buscar um ajuste fiscal suave e gradual, sem cortes abruptos que comprometam os programas sociais essenciais.
Por fim, ele conclui que é possível equilibrar as contas públicas sem sacrificar os mais necessitados, desde que haja um compromisso claro e ações concretas em direção a esse objetivo. A chave, segundo ele, está em um planejamento fiscal que permita ao governo executar políticas sociais eficazes enquanto mantém a sustentabilidade econômica.






