A artista visual e fotógrafa Marcela Bonfim apresenta uma nova perspectiva da Amazônia, destacando a rica história da população negra que contribuiu para a formação da região. Seu livro, “Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível”, é semifinalista do Prêmio Jabuti 2026 e reúne uma coletânea de fotografias, textos e reflexões sobre identidade e memória.
Uma nova visão sobre a Amazônia
Bonfim, que se mudou para Rondônia em 2010, encontrou um universo de histórias que fogem da narrativa tradicional, na qual a floresta e os povos indígenas são os protagonistas. Ela se deparou com a história dos barbadianos, negros que migraram do Caribe para a Amazônia no início do século 20, em busca de oportunidades. Essa população foi fundamental para a formação de Porto Velho, mas sua trajetória frequentemente é ignorada.
Descobrindo as raízes da negritude
A identificação pessoal de Marcela com a comunidade barbadiana a levou a questionar as representações da população negra na região. Ao ser confundida com membros dessa comunidade, ela começou a se perguntar sobre a imagem que estava sendo projetada da negritude na Amazônia. A artista revela que “ouvir essas pessoas falando que criaram escolas bilíngues para os filhos. Implantaram saúde e educação” foi um marco em sua jornada.
A fotografia como ferramenta de reconstrução
A paixão pela fotografia surgiu quando Marcela decidiu documentar essas histórias, inicialmente para compartilhar com sua família. Contudo, a colega que a incentivou a explorar as diversas expressões da negritude em Rondônia ampliou seu olhar, levando-a a fotografar comunidades quilombolas, terreiros e áreas periféricas. “Comprei a câmera pra mostrar a nossa história pra minha família. Porque a gente sofreu um apagamento muito forte”, afirma.
Desafiando a percepção da Amazônia
Em sua obra, Marcela argumenta que a imagem da Amazônia não pode ser reduzida à floresta e aos indígenas, ignorando a presença negra. Ela observa que “poucas pessoas têm acesso a essa negritude na Amazônia” e enfatiza que é fundamental reconhecer a multiplicidade de identidades que compõem a região.
Visibilidade e representatividade
O livro “Amazônia Negra” também aborda questões sociais e de poder. Segundo Bonfim, a forma como a população negra é retratada está ligada às oportunidades que lhe são oferecidas. “Ali a gente fala sobre esses aspectos da qualidade de vida do negro”, explica, ressaltando a importância de discutir a invisibilidade dessa comunidade.
Um chamado à ação
Durante o Mês da Consciência Negra, a reflexão sobre a história e as lutas da população negra ganha destaque. Para Marcela, reconhecer a negritude amazônica é essencial para ampliar as narrativas históricas do Brasil. Ela argumenta que “tem negro na Amazônia, sim”, e que essas histórias devem ser contadas e valorizadas.
Por fim, a indicação ao Prêmio Jabuti representa uma oportunidade para aumentar a visibilidade dessas narrativas e contribuir para a autoafirmação da população negra em Rondônia. A autora, que já foi premiada pelo seu trabalho artístico, destaca a importância de ser vista e reconhecida: “Eu fico muito feliz porque a gente faz uma batalha muito grande para ser enxergado”.






