Recentes ataques cibernéticos na Europa, que afetaram equipamentos de refrigeração, levantaram preocupações sobre a segurança de sistemas conectados no Brasil. Com temperaturas elevadas a 50ºC em freezers, muitos supermercados e lojas sofreram perdas significativas de alimentos.
Impacto nos setores de saúde e varejo
Na França, o Serviço Francês de Sangue (EFS) informou que a invasão comprometeu o funcionamento de equipamentos que refrigeram bolsas de sangue, essenciais para mais de mil hospitais. Embora o incidente tenha sido detectado a tempo, não resultou em perdas. Este não foi um caso isolado; um ataque anterior já havia causado danos a supermercados, levando a incêndios e perdas de produtos.
Conexão à internet e vulnerabilidades
Esses incidentes destacam a vulnerabilidade de diversos setores, incluindo varejo, saúde e indústrias. Todos os equipamentos afetados estavam conectados à internet, tornando-se alvos fáceis para invasores. Especialistas em cibersegurança alertam que no Brasil, dispositivos como controladores de refrigeração, câmeras de segurança e maquinários hospitalares estão igualmente em risco. Marcos Simplicio, da Escola Politécnica da USP, ressalta que “qualquer dispositivo conectado à Internet que não tenha proteções suficientes estão mais ameaçados do que nunca”.
Como os ataques se concretizam
Os ataques na Europa demonstraram que invasões digitais podem causar estragos físicos e financeiros sem que os criminosos precisem acessar informações confidenciais. Ao controlar sistemas de refrigeração, os hackers alteraram parâmetros de operação, indicando que o mesmo pode ocorrer em solo brasileiro. No varejo, há uma necessidade urgente de proteger equipamentos como freezers e sistemas de climatização.
Roberto Toscani, CISO da empresa de cibersegurança Tripla, explica que os refrigeradores são vulneráveis porque frequentemente têm acesso remoto, o que facilita a invasão. Além disso, muitos não recebem as atualizações de segurança necessárias, o que os torna alvos atrativos. Ele também destaca que a falta de monitoramento específico pode permitir que comportamentos suspeitos passem despercebidos.
Riscos em hospitais e indústrias
Os riscos se estendem ao setor de saúde, onde equipamentos vitais, como refrigeradores de vacinas e máquinas de diagnóstico, estão expostos. Ana Paula Kubinhets, CEO da consultoria Aquarelle, alerta que invasões podem resultar em informações incorretas, o que compromete diagnósticos e tratamentos.
Na indústria, a manipulação indevida de sistemas pode gerar produtos defeituosos e até causar acidentes. Equipamentos automatizados, como guindastes em portos, estão igualmente em risco, e uma falha em seu controle pode ter consequências graves.
Conectividade e segurança
Um dos maiores perigos da conexão dos equipamentos à internet é que uma invasão em um dispositivo pode comprometer toda a rede. Toscani recomenda a separação das redes operacionais das corporativas para limitar o alcance de um ataque. Ele afirma que, com uma segmentação adequada, um invasor teria acesso restrito apenas ao equipamento comprometido.
Simplicio acrescenta que a motivação por trás dos ataques nem sempre é financeira; mesmo equipamentos de baixo valor podem ser visados. Ele ressalta que sistemas ciberfísicos, que conectam dispositivos digitais a ambientes físicos, podem gerar consequências devastadoras.
Preparação das empresas brasileiras
Embora os ataques na Europa não tenham se repetido no Brasil até o momento, Fernando de Falchi, especialista em cibersegurança, alerta que as vulnerabilidades são semelhantes. Organizações brasileiras enfrentam, em média, quase 2.000 ataques cibernéticos por semana. Falchi destaca que a falta de segurança pode acarretar sérias consequências, desde perdas de estoque até riscos à saúde de pacientes.
Kubinhets observa que a preparação das empresas varia amplamente. Enquanto algumas têm sistemas de monitoramento avançados, outras ainda dependem de métodos manuais. Isso revela um problema de gestão, onde a segurança não deve ser responsabilidade exclusiva das equipes de TI.
Estratégias para mitigar riscos
Para prevenir danos em caso de invasões, é vital adotar medidas técnicas, além de promover a colaboração entre as equipes de segurança, TI e manutenção. É essencial identificar todos os dispositivos conectados à rede, revisar o acesso à internet e garantir que os equipamentos estejam sempre atualizados.
A manutenção preventiva também é crucial. Alterações no comportamento das máquinas e oscilações de temperatura devem ser monitoradas. Tanto Toscani quanto Kubinhets enfatizam a importância de uma abordagem integrada, onde a segurança dos equipamentos conectados se torna uma prioridade para todas as áreas da empresa.
Os desafios são grandes, mas a proteção de sistemas críticos não pode ser negligenciada. Conforme Falchi conclui, a segurança vai além da TI e é fundamental para a continuidade dos negócios, a segurança alimentar e, em muitos casos, a proteção da vida.






