Na quarta-feira, 4 de novembro de 2026, ocorreu um marco na história da diplomacia brasileira: Marcelo Kariri e Idjahure Terena, representantes de povos originários, tomaram posse no Palácio Itamaraty, em Brasília. Esta é a primeira vez que indígenas integraram o curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, ligado ao Ministério das Relações Exteriores.
Início da trajetória diplomática
Os novos diplomatas se juntarão à turma que se inicia em 2026 e concluirá em 2028, fazendo parte de um grupo de cerca de 60 alunos aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Quase metade dos aprovados é composta por representantes de grupos historicamente sub-representados, incluindo 17 pessoas negras, 7 com deficiência e uma quilombola, além dos dois indígenas.
Compromisso com a diversidade
Este grupo de novos diplomatas também é notável por ter a maior participação feminina da história do curso, com 45% de mulheres. O concurso que os selecionou incluiu ações afirmativas, em conformidade com o Estatuto da Igualdade Racial de 2010, atendendo a uma demanda de longa data dos movimentos sociais por direitos humanos.
Reconhecimento da importância da inclusão
Durante a cerimônia de posse, a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, enfatizou a importância de um corpo diplomático que reflita a diversidade da sociedade brasileira. Ela afirmou: “Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência.” A ministra também destacou as iniciativas do ministério para promover essa diversidade, como o aumento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia.
Perspectivas para o futuro
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, também comentou sobre a importância desse momento, que representa a realização do conceito de “Aldear o Estado”, promovendo a inserção de lideranças indígenas em locais onde possam influenciar decisões nacionais e internacionais. Ele refletiu sobre a trajetória histórica dos indígenas no Brasil, lembrando que, há poucos séculos, esses povos não eram reconhecidos como seres humanos.
Ailton Krenak, intelectual e escritor indígena, foi um dos convidados de honra e destacou a presença de famílias e crianças na cerimônia, ressaltando a importância do ato em um contexto institucional muitas vezes frio e distante.
Trajetórias acadêmicas dos novos diplomatas
Marcelo Kariri, oriundo de Campina Grande (PB), é engenheiro elétrico graduado pela UFCG e possui um MBA em digital business pela USP/Esalq. Ele atuou como engenheiro de suporte e é autor de um livro infanto-juvenil. Durante sua fala, Marcelo compartilhou como sua família costumava acreditar que pessoas de sua origem não deveriam estudar.
Idjahure Achkar Terena, por sua vez, é doutorando em antropologia social pela USP e possui mestrado na mesma área pelo Museu Nacional da UFRJ, além de ser graduado em Ciências Sociais pela PUC-Rio. Ele expressou sua consciência sobre a história de exclusão e a luta por um futuro que integre a diversidade étnica ao Estado.
Em um Brasil com 203 milhões de habitantes, onde 1,2 milhão são indígenas de 391 etnias e 92,1 milhões são negros, a posse de Marcelo e Idjahure é um passo significativo para a representatividade nas esferas de poder do país.






