Recentes investigações com múmias incas revelaram que crianças escolhidas para sacrifícios humanos recebiam substâncias psicoativas que visavam reduzir a ansiedade e o medo associados a esses rituais. A pesquisa encontrou evidências do uso de cocaína e álcool, além de harmina, um composto ligado à ayahuasca, em amostras de cabelo e unhas.
Substâncias psicoativas identificadas
Os exames toxicológicos realizados nas múmias mostraram que todas as amostras de cabelo continham traços de cocaína, e metade dos indivíduos apresentava sinais de consumo de álcool. A harmina foi detectada em uma das amostras de unhas, sugerindo que as crianças eram preparadas com diferentes substâncias antes de serem oferecidas aos deuses.
O ritual do capacocha
O sacrifício humano era uma prática central na religião inca, e as vítimas eram vistas como emissários sagrados entre os humanos e as divindades. A seleção das crianças, geralmente entre 6 e 15 anos, era baseada em critérios subjetivos de beleza e saúde. O ritual, conhecido como capacocha, visava restaurar a estabilidade após crises no império inca, como fome ou pestilência, conforme relatado pelo frei espanhol Martín de Murúa em 1590.
Preparação das vítimas
As crianças eram frequentemente levadas a Cusco, a capital do império, para participar de elaboradas cerimônias antes de serem encaminhadas a locais sagrados. Durante essa jornada, era comum que elas recebessem chicha, uma cerveja de milho fermentada, para que chegassem alegres e tranquilas aos rituais. Estudos prévios já haviam identificado vestígios de coca e álcool em múmias, mas não se sabia se outras drogas eram utilizadas.
Para esclarecer essa questão, os pesquisadores analisaram amostras de cabelo e unhas de oito crianças mumificadas encontradas em regiões montanhosas do Peru e da Argentina. Com idades entre 6 e 14 anos, essas crianças foram submetidas a sacrifícios brutais, como estrangulamento ou enterramento vivo.
Assinaturas químicas únicas
Os resultados dos exames toxicológicos mostraram que cada criança tinha uma combinação química específica, indicando que eram “preparadas” de maneira distinta para os rituais, possivelmente em função da divindade à qual seriam entregues.
As amostras revelaram que o uso da coca era generalizado entre as crianças. Todas apresentaram cocaína e benzoilecgonina, indicativo de que mascavam folhas de coca, uma prática cultural tradicional andina. Essa substância poderia ter ajudado a aliviar a fome e a fadiga durante as exigências físicas das longas jornadas.
Descobertas adicionais
A presença de cocaetileno em duas das crianças, ambas encontradas na Argentina, sugere a ingestão simultânea de cocaína e álcool. Em uma das amostras, uma menina de 8 anos apresentava esse composto em uma seção do cabelo correspondente ao último mês de vida, o que pode indicar que ela consumiu chicha antes do sacrifício.
Outra descoberta significativa foi a harmina, encontrada nas unhas da famosa “Donzela de Ampato”, uma menina de 14 anos. Essa substância é conhecida por suas propriedades que inibem a degradação de neurotransmissores, possivelmente utilizadas para acalmar as crianças antes do ritual, como mencionado por cronistas da época.
Apesar dos testes não terem encontrado alucinógenos fortes como DMT ou mescalina, os pesquisadores acreditam que as substâncias administradas tinham a finalidade de suavizar os desafios emocionais e físicos enfrentados pelas crianças em seus momentos finais.
A pesquisa foi divulgada em 3 de novembro na revista Antiquity, trazendo novas luzes sobre os complexos rituais incas e seus significados culturais.






