A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano gerou uma onda de insatisfação no setor industrial brasileiro. Entidades representativas da indústria argumentam que essa taxa elevada prejudica tanto as famílias quanto as empresas, que enfrentam um cenário de endividamento crescente e juros reais entre os mais altos do mundo.
Reação do setor industrial
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, criticou a manutenção dos juros e defendeu que o Copom inicie um ciclo de cortes em sua próxima reunião, marcada para os dias 8 e 9 de dezembro. Alban enfatizou que a política monetária restritiva está afetando negativamente o crédito, os investimentos e a atividade econômica. Ele afirmou: “É verdade que as expectativas para a inflação pioraram, mas o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) segue dentro do intervalo da meta no chamado horizonte relevante da política monetária. É possível continuar diminuindo os juros em ritmo compatível com a convergência da inflação para a meta, sem impor à economia um custo maior do que o necessário para assegurar a estabilidade dos preços.”
Descompasso nas políticas econômicas
Além de apontar os impactos diretos da Selic elevada, a CNI destacou o descompasso entre as políticas fiscal e monetária desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A entidade alertou que a ausência de clareza sobre as medidas para equilibrar as contas públicas gera desconfiança entre os credores, que exigem maiores retornos, o que pressiona o câmbio e afeta as expectativas de inflação. A confederação também observou sinais de retração em setores-chave devido às altas taxas de juros e à instabilidade financeira. “A manutenção da taxa básica de juros em patamares elevados por um período prolongado vem endurecendo as condições de crédito, encarecendo o capital de giro e desestimulando decisões de investimento e consumo”, argumentou a CNI em nota.
Protestos regionais
Entidades estaduais também se manifestaram contra a decisão do Copom. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, descreveu o aperto monetário do Banco Central como “desmedido”, destacando que a taxa básica está cerca de três vezes acima da inflação atual. Skaf observou que “na prática, a autoridade monetária pune quem produz e consome”, citando que juros bancários em torno de 30% ao ano inviabilizam investimentos e agravam o endividamento das famílias e empresas. Ele concluiu que “é urgente readequar as políticas monetária e fiscal para trazer a Selic a níveis toleráveis e devolver a competitividade à economia brasileira.”
Críticas à condução fiscal do governo
Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), criticou a falta de consistência na condução fiscal do governo federal. Ele argumentou que “a manutenção de uma política fiscal expansionista, associada à adoção de medidas de curto prazo de caráter populista e à ampliação de estímulos ao crédito, tende a sustentar artificialmente a demanda, elevar os prêmios de risco e dificultar o processo de desinflação.” Enquanto isso, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) defendeu a necessidade de estabelecer uma “trajetória sustentável” para a redução da Selic, ressaltando que um compromisso fiscal sólido é essencial para viabilizar cortes de juros e estimular a recuperação da indústria.
O cenário atual levanta preocupações sobre a saúde econômica do Brasil e a necessidade de ajustes nas políticas monetária e fiscal para garantir um ambiente mais favorável ao crescimento e ao investimento.






